De frente para o inimigo?
Não deixe o computador se transformar no vilão
da sua saúde
Ela chega devagar:
muitas vezes começa com um pequeno formigamento ou uma
sensação de desconforto. E pode evoluir até
tornar-se uma dor crônica e constante, que deixa a pessoa incapaz
de vestir-se ou escovar os dentes sozinha.
A LER,
Lesão por Esforço Repetitivo, não é
exatamente uma novidade (os primeiros registros foram feitos pelo
médico italiano Bernardino Ramazzini, em 1713). No entanto,
desde a década de 80, quando os PCs surgiram e começaram
a ganhar popularidade, os registros da doença aumentaram a ponto
de hoje ser quase impossível não associar o problema ao
uso do computador.
De lá pra
cá muita coisa mudou. Sabe-se, por exemplo, que o programador
frenético, que digita o dia inteiro, não é o
único candidato a contrair o mal. “Não é
somente a quantidade de movimentos que pode causar lesões.
Permanecer muito tempo na mesma posição e numa
tensão muito grande também afeta o corpo”, afirma
Ana Isabel B.B. Paraguay, doutora em saúde pública,
mestre em Ergonomia e pesquisadora da Faculdade de Saúde
Pública da USP. Por conta dessas novas descobertas, a LER ganhou
um novo nome: Dort, Distúrbios Osteomoleculares Relacionados ao
Trabalho. Mas, independentemente do nome, o problema ainda está
no topo da lista das doenças que mais afastam os trabalhadores
de suas funções. Não há números
oficiais e atuais a respeito da LER no Brasil, mas estima-se que o mal
seja hoje a razão de mais da metade dos afastamentos de
funcionários registrados pelo Instituto Nacional de Seguridade
Social, o INSS.
Para os
usuários de computador, as áreas mais afetadas pela
LER/Dort são as mãos, os punhos e os braços. Essas
partes do corpo sofrem principalmente com as tendinites de extensores
do punho. Durante a digitação, os tendões (Tecidos
que ligam os músculos aos ossos) são obrigados a fazer um
esforço para manter os músculos realizando os mesmos
movimentos. Quando a ação é realizada durante um
intervalo grande de tempo, esses tecidos vão inflamando,
causando muita dor e inchaço.
Além de
apertar as teclas, é normal a pessoa deixar os ombros elevados e
abertos durante a digitação. Mantendo essa
posição durante muito tempo, são grandes as
chances de desenvolver a chamada tendinite de supra-espinhoso, que
afeta os tendões do músculo responsável pelos
movimentos de elevação e rotação externa do
braço. Em outros casos, de frente para o micro, uma pessoa pode
adquirir uma cervicobraquialgia, causada principalmente pela
tensão muscular próxima ao pescoço. O nome
é complicado, mas o problema nada mais é do que uma dor
na coluna cervical (próxima à nuca), que irradia para
todo o braço.
Há outros
problemas que muitas vezes são associados a LER/Dort, como a
bursite (inflamação da bursa, bolsa que funciona como
amortecedor das articulações. Ataca ombros, cotovelos e
joelhos), epicondilite (inflamação dos tendões do
cotovelo) e síndrome do túnel do carpo (Aparece quando o
nervo mediano, localizado no punho, fica comprimido e provoca
formigamento na mão). Mas é importante destacar que
apesar de ser um dos causadores dessas patologias, o uso exagerado do
PC não é o único responsável por esses
males. “Essas doenças podem afetar pessoas que nunca
tocaram num computador, mas realizam outros movimentos repetitivos ou
apresentam problemas, como uma disfunção hormonal e um
reumatismo”, diz Flavio Faloppa, chefe do departamento de
ortopedia e traumatologia da Universidade Federal de São Paulo.
Junto com a
repetição dos movimentos e a má postura, existem
outros fatores capazes de desencadear ou acelerar um quadro de
LER/Dort. “A pressão e o stress no trabalho e até o
ar condicionado podem agravar a LER”, diz Osmar de Oliveira,
ortopedista e especialista em reabilitação. Segundo o
médico, o ar exageradamente frio resfria o corpo, causando
contratura muscular e diminuição da
circulação, o que acelera os problemas causados pelas
Lesões por Esforço Repetitivo.
TEM CURA?
As opiniões
sobre a cura da LER/Dort são divergentes. Enquanto alguns
especialistas dão como certa a solução da
doença, outros acreditam que isso só é
possível quando o problema é detectado e tratado no
estágio ainda inicial. O tratamento também depende do
quão evoluída está a doença. As
técnicas mais usadas e indicadas por médicos são
as sessões de fisioterapia, o uso de antiinflamatório e a
imobilização do membro.
Mas o ideal, antes
de qualquer tratamento, é tentar se prevenir de todas as formas
e manter o problema bem longe das mãos e do corpo. “O
computador não é o grande vilão da LER. O problema
está na maneira como ele é usado”, afirma Carlos
Maurício Duque, consultor de ergonomia. Um bom começo
para a prevenção é saber a postura mais indicada
para cada posto de trabalho. Diante do computador, é importante
apoiar as costas no encosto da cadeira, que deve ter uma
reclinação de uns 100 graus. Os pés também
precisam ficar totalmente apoiados no chão. Já o monitor,
é ideal que fique bem à frente do operador, na mesma
altura da cabeça. O teclado pode ser colocado de frente para o
usuário e numa posição que permita o apoio dos
punhos durante a digitação.
Para quem usa
notebook, os cuidados devem ser ainda maiores. Nada ergonômico, o
micro portátil tem um teclado pequeno demais e, quando colocado
sobre a mesa, a tela fica muito abaixo da altura correta. Esses
usuários devem ter em casa ou no escritório um mouse e um
teclado convencionais que possam ser plugados ao portátil e um
suporte que sustente a tela na altura correta. Ou, se preferir, usar
uma dockstation completa para a conexão dos periféricos
ao micro.
MEXA-SE
Seja no desktop ou
no notebook, é claro que ninguém consegue manter a mesma
postura durante um dia inteiro de trabalho. Por isso, não hesite
em fazer uma pausa e mudar de atividade quando for necessário. A
legislação trabalhista prevê um intervalo de dez
minutos a cada 50 minutos de digitação ou trabalho
similar. Mas há quem defenda que essa pausa deve ser definida
pelo próprio usuário, que deve parar, nem que seja para
tomar uma água, ao primeiro sinal de fadiga. “É
importante que cada pessoa se conscientize de usar o computador de
maneira mais responsável”, diz Maria José
Americano, presidente do Instituto Nacional de Prevenção
às LER/Dort.
Na tentativa de
manter a dor bem longe, muitos usuários e empresas aderiram ao
uso de acessórios como mousepad com apoio de pulso, suporte para
os pés ou mesmo móveis com altura e posição
reguláveis. “O uso de acessórios e equipamentos
ergonômicos é importante, mas é preciso acabar com
o mito de que eles são suficientes para evitar a
LER/Dort”, afirma Maria Maeno, coordenadora do Centro de
Referência em Saúde do Trabalhador do Estado de São
Paulo.
Movimentar-se
também ajuda a prevenir o problema. Os exercícios
aplicados na ginástica laboral têm o objetivo de compensar
as articulações mais exigidas no posto de trabalho. Mesmo
que não haja um programa de ginástica laboral na empresa,
uma boa espreguiçada e uma respirada profunda já
têm um efeito positivo.
Para quem fica na
frente do micro o dia inteiro, INFO separou, com a ajuda dos
fisioterapeutas Gisele Cirelli e Paulo Cinelli, exercícios que
podem compensar o batuque no teclado. Quer experimentar? É
só seguir as dicas abaixo.
Mãos,
braços e pescoço na mira
O que a
má postura diante do computador pode fazer com o corpo
Do pescoço
para todo braço - A tensão nos músculos
próximos ao pescoço comprime a coluna cervical. A
compressão, com o tempo, gera uma inflamação,
provocando fortes dores que irradiam para todo o braço.
Ombros doloridos -
A digitação com os ombros elevados e abertos pode
sobrecarregar e inflamar os tendões do músculo
supra-espinhoso, que passa por dentro do ombro.
A famosa tendinite
- A digitação ininterrupta pode sobrecarregar os
tendões dos músculos extensores do punho, causando
tendinite. A dor vai do cotovelo às mãos.
Até o dedo
sofre - Usar o dedão exageradamente para mandar SMS
também causa tendinite. Nesse caso, ela atinge somente o
polegar.
O dedão
sofre com o celular
Os problemas
relacionados à LER/Dort não começam no pulso, mas
um pouco mais embaixo. Mais especificamente no dedão. Com o uso
cada vez maior de celulares para envio de SMS ou de smartphones para o
envio de e-mails, são cada vez mais comuns os casos de
Síndrome de DeQuervain ou tendinite no dedão.
Assim como a LER,
o problema não é novo e vem sendo estudado há pelo
menos 100 anos. Causada por movimentos repetitivos do dedo polegar, a
doença recebeu vários apelidos com o passar do tempo.
Já foi chamada de dedão de lavadeira (washer
woman’s thumb), dedão do Nintendo (Nintendo thumb) e
atualmente vem sendo denominada dedão do Blackberry (Blackberry
Thumb), inspirada no smartphone da RIM, sucesso de vendas nos Estados
Unidos.
“Para evitar
o problema, o melhor é usar o celular ou smartphone para digitar
mensagens curtas. Se quiser digitar mensagens longas, opte por um
teclado externo”, diz Alan Hedge, diretor do Human Factors and
Ergonomics Laboratory, da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.
O corpo em
movimento
Os
exercícios a seguir ajudam a aliviar o esforço de horas
digitando. Todos os movimentos podem ser feitos em pé ou
sentado. Segundo os fisioterapeutas Gisele Cirelli e Paulo Cinelli,
para ajudar no alongamento, o ideal é permanecer em cada
posição durante 30 segundos. Já nos
exercícios de repetição, como o da segunda foto,
é indicado realizar o mesmo movimento ao menos dez vezes durante
sua execução.
- Com uma das mãos, puxe a cabeça para o lado,
procurando olhar para o chão
- Faça círculos com os ombros para trás.
Repita o movimento dez vezes
- Estenda o braço com a palma da mão para cima.
Use a outra mão para puxá-la para baixo
- Com as mãos cruzadas na nuca, puxe a cabeça
para baixo
- Apóie a mão numa parede ou num armário
e gire o tronco para alongar os braços
- Sentado na cadeira ou em pé, leve o tronco para
frente, tentando alcançar o chão .
POR SILVIA BALIEIRO
Topo
Fonte:
Revista info/março 2006.
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